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Sentada em meu ateliê, à minha mesa de trabalho, aprecio, através da janela, os pássaros agitados, que cantarolam de galho em galho e saboreiam as frutas do pomar. Reporto-me, então, aos caminhos percorridos, e um sentimento de paz me invade. Nesses mais de 50 anos dedicados à gravura em metal, povoados de emoções, de ansiedades, de alegrias e de decepções, o que posso dizer é que foram intensamente vividos, e seus resultados, muito importantes para mim.

Ao longo dos anos 1960 e 1970, época de intenso aprendizado, as gravuras em preto e branco foram dando lugar às tímidas experiências em cor, que foram se avolumando em qualidade e em quantidade. Técnicas se sucediam, e as pesquisas eram infindáveis. Os anos 1980 me inspiraram a série Momentos. Ela mostra como o céu de Brasília me deslumbrava ao entardecer dos dias secos, tão comuns no cerrado. Cada minuto mostrava um quadro diferente, em forma e em cor, modelando aquele imenso horizonte.

 

As motivações, no entanto, variavam, e a série Emoções refletiu a necessidade de um salto profundo em meu “eu” interior, em minhas reflexões e emoções diante dos fatos novos que iam surgindo em minha vida. A dualidade do ser humano, sempre surpreendido ao vivenciar emoções fortes, foi representada nessa série por duas figuras opostas, entrelaçadas: uma masculina e uma feminina. Emoções antagônicas, paradoxais, mas complementares, convivem dentro de nós e se manifestam, nem sempre sob o nosso controle. Outros mergulhos em experiências novas, como a busca da espiritualidade, geraram outra maneira de encarar a vida e de explicar certos fatos. Frutos preciosos apareceram, então, na série Sonhos, do final dos anos 1980 até hoje.

A gravura em metal, além do sentir e do emocionar, proporciona um método de trabalho. Não é apenas criar, bolar soluções, mas pensar, organizar. Ela proporciona essa disciplina necessária a todo processo artístico, e foi olhando para trás e me dando conta de todo o aprendizado e de toda a vivência acumulados durante anos, que resolvi expor, em um livro, essas experiências técnicas e pessoais. Seria egoísta guardar, para mim, todo esse conhecimento, sobretudo, por ter mantido, por tantos anos, o ensino dessa arte em meu ateliê. Senti que outros poderiam aproveitá-lo com a leitura desses relatos. Não tenho pretensões literárias em escrever livros, como os que já escrevi, mas, sim, de fazer um registro técnico e pessoal de uma trajetória vivenciada intensamente que, quem sabe, poderá dar mais uma contribuição ao que já foi escrito sobre o assunto: técnicas de gravuras em metal. Por isso, este site.

 

 

 

 

Lêda Watson

Brasília, 2019

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